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Oriundo do alto sertão baiano, meio amargosense e meio maracaense, com naturalidade obedecendo, criteriosamente, os caprichos da separação das montanhosas terras dos dois municípios, divididas pelas fortes correntezas das aguas do Rio de Contas, nascia no dia 14 de março de 1900 no já decadente império do Coronel Marcionílio Dias, atingido pelos efeitos da abolição da escravatura, um crioulinho que se chamaria Marcelino José de Menezes, filho da escrava Eugênia Maria  de Jesus Menezes, uma negra de olhos claros cor de azeite de oliva e de nariz afilado, natural de Angola um dos países africanos que mais exportaram escravos negros para o Brasil. 

A jovem escrava teria sido arrematada, em um leilão, durante a estadia de um Navio Negreiros no porto da cidade de Itacaré e levada para o cerrado sertão baiano através de canoa, pelas aguas do Rio de Contas, para servir na escravidão do comando de um temido Coronel daquela região, depois de ter passado pela aguda lente numa triagem minunciosamente feita pelo feitor João Ferbune, homem da mais alta confiança do Coronel Marcionílio Dias.

Naquele tempo o nome dos filhos de escravos que nasciam na senzala de um famoso dono de engenho, tinha que ter alguma semelhança que lembrasse o nome do seu Senhor. Neste caso, o nome do menino Marcelino lembrava afetivamente o nome do seu patrão Marcionílio e desta forma o negrinho que já chegou ao mundo gozando das benesses da “Lei Aurea” foi batizado e registrado como filho da escrava Eugênia Maria de Jesus Menezes e de pai ignorado. 

Até os dezoito anos de idade, Marcelino laborou na fazenda do seu patrão Marcionílio, mas com a morte de sua mãe o jovem ficou meio desorientado e pediu permissão a seu patrão para correr trecho, conhecer novas pessoas e aventurar a vida em outras pirambeiras no que foi satisfatoriamente atendido, mas com uma condição, se não se der bem por onde andar, pode voltar que seu lugarzinho estará garantido.

O jovem rapaz, sem nenhuma instrução escolar, deu sorte e não andou muito para se aconchegar na região dos “Cama Boa”, uma família renomada que morava do outro lado do Rio de Contas, no município de Maracás, a época, e ali o destemido jovem conheceu a família dos Souza composta de Manuel Bispo de Souza e Chiquinha. Pedro Joaquim de Souza viúvo de Maria Izabel, Porfírio Bispo de Souza e Jovelina de Souza. Pedro Joaquim de Souza era um senhor bem jovem, mas já enlutado pela viúves e pai de três filhos: Cristina, Levina e José Augusto. 

Marcelino, jovem honesto e trabalhador, nada tinha de cabedal para oferecer a uma moça, mas tinha uma riqueza incomensurável a sua honestidade e muita coragem para trabalhar. Imediatamente Marcelino se interessou pela a menina moça Cristina da Silva Souza que naquela ocasião tinha menos de treze anos de idade. 

Marcelino, respeitosamente, se dirigiu à presença do Sr. Pedro e pediu a mão de Cristina em casamente e o futuro sogro aceitou. 

O jovem Marcelino Menezes tinha 25 anos quando se casou com a adolescente Cristina e ainda era um moço donzelo (virgem) como ele mesmo confessou a Seu Enéas Mota seu amigo íntimo, em bate papo familiar e confidencial, que a sua esposa Cristina foi a primeira e última mulher que ele se relacionou na vida. Outro fato sui gêneris na vida deste casal foi que a Senhorita Cristina ainda não havia menstruado pela vez primeira quando se casou. Então o seu abnegado marido, sabedor do fato, foi paciente e esperou até que o isto acontecesse para que eles pudessem realizar a primeira relação sexual que, neste caso, valeu para os dois. Dessa feliz união conjugal nasceram, ainda lá no sertão, 7 filhos: Guilherme, Agapito, Antonio, Otaviano, Eugênia, Maria e João.

Mas, o chão esturricado do sertão de Lagoa dos Patos, Ginete e Monte Branco, regiões em que laboravam na atividade rural, nada mais tinha para oferecer a uma família já bastante numerosa. E tomando conhecimento do surgimento de um novo povoado no município de Itabuna chamado Itapuí, e atiçados pelo destino que os levaria a uma nova aventura nessa “terra prometida”, os retirantes levaram quase 60 dias de viagem para chegarem a esta localidade. Esses corajosos sertanejos palmilharam quase sessenta léguas de mala nas costas, cuia na mão e pé na estrada até alcançarem Itapuí, isso por volta da metade dos anos 30 do século passado, onde Marcelino firmou contrato rural com o Sr. Zequinha Guimarães para plantar café, cacau e cereais na Fazenda Primavera a 6 KM de Itapuí rumo a cabeceira do Rio Colônia. O contrato rezava um período de 20 anos de domínio da roça com documento passado em cartório. 

Nesta nova morada a família cresceu bastante. Nasceram outros 4 rebentos: Alcides, Osvaldo, Erotildes, Marcelino Filho e 2 natimortos. Molecada que foi criada até nascer os dentes com uma receita nutritiva a moda sertaneja preparada pela ria Cristina  a base de pó de farinha de mandioca, uma pitada de sal, água, pó de canela, açúcar e sebo de carneiro. Todos foram criados e educados conforme o regime imposto pelos seus pais e pelos ditames sociais regionais. Osvaldo e Marcelino Filho estudaram mais que os outros, pois era desejo do velho Marcelino vê-los trabalhando em balcões de lojas de tecidos, de farmácias ou armazéns de secos e molhados porque isto era tudo que o mercado de trabalho oferecia naquele tempo para os jovens do sexo masculino e para as senhoritas o curso de corte e costura era o ideal para uma jovem postulante a um bom casamente. 

Fim do contrato com a Fazenda Primavera, ocorrido no finalzinho dos anos 50, a família amealhada de alguns cruzeiros, moeda da época, se transferiu para o extremo sul, parando no município de Prado-Bahia onde adquiriu uma boa propriedade rural. Porém, ali nada deu certo como eles haviam planejado, sendo obrigados a retornarem a Itororó assim que puderam. O filho Osvaldo, logo que chegou a Itororó, voltou a sua velha profissão de bananeiro, comprou uma casinha na cidade e colocou o casal de idosos. Ali o já cambaleante chefe da unidade familiar, Marcelino José de Menezes, se aposentou como trabalhador rural e viveu até a morte registrada no dia 24 de abril de 1985, aos 85 anos. 

Já a matriarca Cristina da Silva Menezes viveu até o dia 24 de dezembro de 1994, quando por determinação superior foi também chamada para o outro lado da sua existência. Os dois estão repousando no descanso eterno no cemitério local...

O velho Marcelino foi na vida um negro de alma branca. Um diamante lapidado apesar da falta de escolaridade e conseguiu passar este seu interior para sua prole e também para mim que sou, orgulhosamente, seu sobrinho, pois a tia Cristina, sua esposa, era irmã de minha mãe. 

Lembro-me perfeitamente das lindas tardes de verão, em que depois de exaustivos dias trabalhados, o tio Marcelino chegava da roça trazendo um pau de lenha sobre o ombro esquerdo, pois era canhoto, pegava o machado, rachava a lenha e se assentava num velho cepo de madeira roliça, tirava seu chapeuzinho de couro de abas curtas, pedia uma manoca de fumo curado no sol e no sereno, enrolava seu charuto, pedia um tição de fogo para acendê-lo e logo a tia Cristina lhe trazia um cafezinho donzelo, ele prazerosamente tomava o café, limpava a garganta, tirava suas belas tragadas e por ali ele ficava a nos contar historinhas engraçadas, a nos ensinar pisar firme na escalada da vida e se punha a brincava com a gurizada como se fosse outra criança. Mas naquele simples limpar de goela e num olhar atravessado, já dava a entender a um filho que fizera coisa errada, que ele não gostou nada da sua atitude. E quando chegava às 6 horas da tarde, exatamente, era hora de parar tudo. Dali ele partia para a cachoeira que ficava a uns 50 metros de distancia, tomava seu banho e reunia a filharada para o jantar e logo depois se recolhia no seu quarto para dormir, arguindo ter amanhã tarefas ainda mais difíceis e pesadas que as de hoje. 

Essas reminiscências me levaram a pautar o meu jeito de viver encima dos seus ensinamentos e também consegui passá-los para minha descendência. Obrigado tio Maçu, obrigado Senhor Deus...


Créditos: Saudoso Miro Marques 

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